Racismo, Edilson e História
17/02/2018 15:12 em Novidades

Para quem não viu o fatídico episódio de Edílson - que era bom de bola, mas mais que isso não sei – segue abaixo a transcrição de sua fala. Momento em que, além de expor Zinho, de forma bem infeliz, se refere a Jailson, goleiro que está em ótima fase no nosso Verdão:

 

Zinho, Zinho! Você me falou de goleiro negão uma vez... Tô lembrando... Você lembra disso. Eu não esqueço disso. A gente tava jogando, Guarani e Palmeiras, a gente tava jogando, jogando, jogando, o goleiro fazendo milagre. Aí eu passo por ele, dentro do jogo, e digo: “Zinho, a gente não vai fazer gol hoje não?” Aí ele falou: “Esse goleiro é negão, daqui a pouco ele erra”. (risos). Aí, quarenta e três, chutaram de longe, a bola entrou. Aí ele passou por mim correndo, comemorando: “Tá vendo o que eu falei! É goleiro negão, goleiro negão sempre toma um gol.”

E continua...

Tá vendo o que eu falei? Goleiro negão sempre toma um gol! (gargalhadas)

E Dida não era negão, não, né? (Benjamin Back, líder do programa da Fox, indaga)

Dida, não! Dida é pardozinho... (mais gargalhadas, diante de uma justificativa igualmente racista)

Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Nada a ver: Jeferson é um baita de um goleiro, Jeferson pega pra caramba! (Osvaldo Pascoal, outro participante pergunta)

 

É que tem umas coisas no futebol... É que vocês não entendem... Tá bom! Depois, vocês vão dizer... É do futebol, irmão!

 

Em meio a risos, gargalhadas e momentos de desconforto por parte dos jornalistas da Fox, Edílson fez essas colocações francamente racistas, dizendo que os demais não entendem o que seria inerente ao meio do futebol, ao qual ele participou.

Eu, que não fui jogador e nem vivo do futebol, vou me atrever a mostrar algo que talvez Edilson, do alto de seu "conhecimento" e racismo, não saiba.

Essa ideia referente ao que seria uma incapacidade com relação a goleiros negros tem data de nascimento, neste país em que o racismo nasceu desde seus primeiros passos, desde 1500.

Copa do Mundo de 1950, o que poderia ser para comemoração, já que a Seleção pela primeira vez se tornava vice-campeã, muito pela imprensa, transformou-se em tragédia. O mundialmente famoso Maracanazzo.

E, daí por diante, iniciou-se uma perseguição, uma caça às bruxas, criaram-se “culpados” pelo vice.

E o primeiro deles foi Barbosa, goleiraço da época, titular absoluto e... negro! - Aliás, culparam também outros jogadores negros, como Bigode e Jair (o nosso Jair da Rosa Pinto, campeão do Mudo em 1951).

 

Em entrevista, logo após à derrota para o Uruguai na final, o técnico Flávio Costa foi o primeiro a acusar Barbosa e os jogadores:

“... até o nosso goleiro, que era a garantia de segurança e técnica, foi dominado, falhando no momento culminante...”. (A Gazeta, 17 de julho de 1950).

 

Anos depois, 1986, o próprio Barbosa lembra para Geneton Moraes Neto, em entrevista, como passou a ser perseguido:

“... Uma vez me disseram que quem inventou foi Mário Filho. Aliás, contestei o que Mário Filho escreveu: que trememos porque éramos pretos. (...) Mário Filho também andou dizendo que, no dia de minha estreia na Seleção Brasileira, contra a Argentina, em São Paulo, Flávio Costa teria me tirado de campo no intervalo porque eu estaria com o calção todo sujo. Todo sujo de merda – é essa a expressão. Mas, eu nem quis contestar, porque essa é uma baixeza tão grande que nem vou descer a esse nível.” (Moraes Neto, 2000: 49-50)

 

Ou seja, na sua velhice, a mágoa de Barbosa era imensa. Era uma tristeza tão grande quanto as maledicências que foram se perpetuando desde aquela final contra o Uruguai, ainda em 1950:

“Houve quem, editando erudição em futebol, lembrasse que a posição de goleiro, até prova em contrário, era mais pra branco. (...) Os goleiros mulatos e pretos geralmente eram moleques. (...) Quando jogavam sério, como um Nélson da Conceição, estavam sujeitos ao deboche. (...) E os emotivos, como Luís Borracha que chegava às lágrimas. Ou o Moacir Barbosa, que tinha de mudar o calção.

Assim escreveu Mário Rodrigues Filho, no livro o Negro no Futebol Brasileiro, segunda edição (1964) – obra tida como um clássico da literatura do futebol no Brasil e Màrio Filho que tem seu no Maracanã como recompensa aos serviços prestados ao futebol...

 

Coincidentemente ou não, depois de Barbosa e dessa narrativa, somente na Copa do Mundo de 2006, Dida tornou-se o primeiro goleiro negro a vestir a camisa da Seleção Brasileira, em Copas do Mundo, desde 1950.

 

Referências:

MORAES NETO, Geneton. 50: Os Onze Jogadores Revelam os Segredos da maior Tragédia do Futebol Brasileiro. Editora Objetiva, 2000

RODRIGUES FILHO, Mário. O Negro no Futebol Brasileiro. 2ª ed. Civilização Brasileira, 1964.

BANCHETTI, Luciano Deppa. Memórias em jogo: futebol, Seleção Brasileira e as Copas do Mundo de 1950 e 1954. Dissertação defendida pela PUC-SP, 2011.

BANCHETTI, Luciano Deppa. Memórias em jogo: futebol, Seleção Brasileira e as Copas do Mundo de 1950 e 1954. Dissertação defendida pela PUC-SP, 2011.

 

Luciano Deppa Banchetti - desenvolvedor da Web Rádio Porco, historiador, professor e, claro, PALMEIRAS de alma e coração verde-palestrino.

 

 

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